Relembrando Guaribas

 Relembrando Guaribas

Quando criança, sempre que chegava o período das férias escolares, me destinava à Fazenda Guaribas, de propriedade dos meus avós paternos Olavo Ribeiro Torres e Zenóbia Barbosa Torres, no Povoado Santo Antônio (divisa dos municípios de Barras e Nossa Senhora dos Remédios).

Para mim lá era um paraíso sobre a Terra! O leite mugido, as saborosas frutas, os verdes pastos, os animais, o riacho de água cristalina que corria mansamente, as conversas puras e sempre gostosas de se ouvir, a atenção de Vovó Zenóbia – exemplo de mulher de garra e determinação -; o afeto dos tios Olavinho, Fernando, Chagas, Maria, Rui e Chico, dos padrinhos Íris e José Fernando Torres, faziam com que o lugar se tornasse ainda mais apaixonante.

Olavo Torres era do tipo rude. Às vezes, comigo, até severo demais. Sempre achei ele mais atencioso com meus irmãos Adriana e Rogério.

Para os amigos, Olavo sempre era uma festa! Brincalhão, extrovertido até a alma, cheio de vitalidade. Adorava receber as pessoas no casarão da fazenda – o que sabia fazer muito bem, era um grande anfitrião. Seus visitantes tinham sempre tratamento ímpar.

A casa grande da fazenda era sempre cheia de gente, especialmente em épocas de férias e Semana Santa. E tinha tanta fartura que nós crianças “brincávamos” com comida!

A noite era comum sentarmos à porta de casa, sempre aos olhares atenciosos de Vovó Zenóbia, e mulheres nos serviam tachos com frutas, pipoca, coalhada, bolos, biscoitos caseiros, etc., enquanto os adultos amigos da família bebiam e contavam histórias sob a luz do luar, sempre acompanhados do violão do amigo seresteiro Francisco Vieira de Carvalho – um dos maiores amigos da família. Lembro-me muito bem quando ele com sua voz suave cantava “Maria Helena” e “Índia”, as canções preferidas de Vovó Zenóbia. Que saudade!

Lá na Fazenda Guaribas o tempo parecia passar de forma mansa, carinhosa, gostosa.

Num certo dia de 1977, ao entardecer, as acauãs anunciavam num canto triste que Zenóbia partia… Em 1979 foi a vez de Olavinho…

… O riacho não mais corria mansamente, o vento não mais zumbia nas folhagens e nem o amigo seresteiro cantava mais “Maria Helena” e “Índia”…

Em setembro de 1992, o “Mestre Olavo Torres” também resolvia nos dar adeus… Sempre dizia que quando partisse queria que fizessem uma grande festa! Uma festa era impossível se fazer, face a dor que essa partida nos causou.

Dizia ele ainda que queria que matassem um boi e dessem bastante comida e cachaça para os caboclos. Não foi bem assim, mas foi um velório diferente… até um pretenso filho seu apareceu de última hora, chorando rios de lágrimas nas calçadas da casa, consolado por uma garrafa de pinga… Peralta como era Olavo, não se duvida que aquele rapaz poderia de fato ser um dos seus rebentos!

No velório, lembro-me bem do doutor Delson Castelo Branco Rocha, então prefeito de Nossa Senhora dos Remédios-PI, hoje meu colega na Academia de Letras do Vale do Longá, do Sargento Torres – figura ímpar, que fez história na região e que pouco tempo mais tarde foi “bater papo” com o parente Olavo, no Céu -, do Chico Josias, José Fernando Torres, e tantos outros amigos, que ao lado do seu corpo contavam suas conhecidas e sempre comentadas peraltices. Ele parecia estar sorrindo, como se ouvisse tudo que falavam.

Levamos-no a pé até o cemitério – próprio das nossas gerações passadas -, entoando belos hinos de louvor a Deus.

À frente dos seus pais Fernando Ribeiro Torres e Vitorina Maria da Conceição Torres, da esposa Zenóbia Barbosa Torres e do filho Olavo Ribeiro Torres Filho, depositaram seu corpo numa vala funda! Lá ele descansa em paz após seus 87 bem vividos anos, enquanto nós que aqui ficamos, guardamos em nossas lembranças os momentos mais lúcidos e afáveis vividos ao seu lado no longo da sua bela existência.

Saudades.

(*) Texto de Reinaldo Barros Torres, titular da Cadeira 12 da Academia de Letras do Vale do Longá – ALVAL.

Foto: Francisco das Chagas Torres Júnior

Diego Albert

1 Comment

  • Muito bom Reinaldo, sinto muitos saudades também, era muito bom participar das brincadeiras, apezar de ainda criança na época. Boas lembranças que nunca serão esquecidas…abraços.

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