“Enfim, sós”, disse Maria Bethânia para um Classic Hall lotado, na noite deste sábado no limite entre Recife e Olinda. A saudação foi pensada para os primeiros shows da turnê Claros Breus – quatro apresentações no Manouche, um clube no subsolo de um restaurante/bar no Rio de Janeiro, para um público de 100 a 150 pessoas cada. Quando transportado para casas maiores, manteve-se a saudação e o clima intimista das apresentações.

A proposta de Claros Breus é combinar um repertório de canções novas (tanto na voz de Bethânia, quanto inéditas) com um mínimo conjunto sentimental de sucessos da artista, num setlist que cobre quase uma hora e meia de show. Apresentado de forma teatral, de modo a lembrar uma noite boêmia numa boate, o espetáculo é dirigido por Bia Lessa, com direção musical e arranjos do maestro Letieres Leite.

Algumas dessas novidades serão selecionadas pela artista e farão parte de um álbum a ser lançado. São composições de artistas como Adriana Calcanhotto, Chico César, Flavia Wenceslau e Roque Ferreira, que o público teve o privilégio de conhecer primeiro na voz de Bethânia. Misturadas a elas, sucessos que estão na memória afetivas dos fãs como Grito de AlertaOlhos nos OlhosDe Todas as ManeiraSábado em Copacabana e outras.

Completam o espetáculo as canções que ganharam uma nova versão na voz da baiana, como O universo na cabeça do alfinete, de Lenine e Lula Queiroga, Sinhá, de Chico Buarque e João Bosco e o clássico romântico/sertanejo Evidências, de José Augusto e Paulo Sérgio Valle, mas imortalizado nas vozes de Chitãozinho & Xororó. E uma vez no Recife, teve espaço ainda para uma rápida saída do roteiro e um frevo por parte da cantora, que mandou um Frevo n.° 2 do Recife à capella (Ai, ai, saudade / Saudade tão grande / Saudade que eu sinto / Do Clube dos Pás, dos Vassouras / Passistas traçando tesouras / Nas ruas repletos de lá), e lembrou todo mundo que só faltam 85 dias pro Carnaval.

Transportar um espetáculo inicialmente pensado para um local pequeno para uma casa muito maior requer adaptações – e sacrifícios. O cenário composto por cortinas vermelhas é belíssimo, assim como o jogo de iluminação que brinca de criar formas com luz, sombra e cores. Nesse sentido, o espaço maior privilegia o público, que tem uma visão mais ampla da artista e da banda. Porém, quem ficou na pista do Classic Hall, ao fundo, ficou limitado ao que conseguiu ver e à única câmera que transmitia para os telões.

Um fenômeno parecido aconteceu com o som, que alternava de qualidade a depender do local dentro da casa de shows. De frente para o palco, perfeito. Nas laterais, nem tanto – o que gerou um mini-protesto no início da apresentação, mas que durou pouco. Durou pouco porque Bethânia é irresistível. O poder da sua voz transcende sistema de som e tamanho do palco. É como um trovão numa noite de céu claro. “Aprendi a cantar com Nossa Senhora e seus anjos”, disse a artista durante o show. Explica muita coisa.

(*) op9