Todos os nove estados do Nordeste deram mais votos para Fernando Haddad (PT) do que para Jair Bolsonaro (PSL) no 2º turno da eleição presidencial de outubro de 2018. Dos nove, o Piauí foi o que mais deu voto ao candidato indicado pelo ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT), que está preso e não pôde sair candidato como gostaria o Partido dos Trabalhadores.

No Piauí, dos 2,3 milhões de eleitores, 77,05% votaram em Haddad enquanto 22,95% optaram por Bolsonaro. E esses 22,95% piauienses que deram seu voto talvez não tenham gostado do que ouviram da boca do próprio presidente eleito e já empossado

Em sua primeira entrevista após empossado presidente da República, na tarde desta quinta-feira (03/01), Jair Bolsonaro deixou bem claro que para os estados do Nordeste, através de seus governadores, que preferiram dar apoio a Haddad, não adianta chegar “pedindo”.

“Não venha pedir nada para mim. Por que eu não sou o presidente deles. O presidente tá lá em Curitiba (capital do Paraná, onde Lula está encarcerado na sede da Polícia Federal)”, afirmou Bolsonaro em questionamento feito pelo jornalista Carlos Nascimento, do SBT, que conduzia a entrevista.

Nascimento perguntou se estaria declarada uma guerra entre o presidente e os governadores, já que nenhum deles compareceu à posse de Bolsonaro. O presidente disse que de sua parte não, mas alfinetou: “O homem mais sofrido do Brasil está na região Nordeste, exatamente por causa dessa mentalidade desses governadores”.

CONFIRA ENTREVISTA:

Segue trecho da entrevista, que pode ser conferida no vídeo a seguir, mais precisamente aos 11 minutos e 50 segundos:

CARLOS NASCIMENTO:Por falar em apoios e não apoios, os governadores do Nordeste, que são de partidos de oposição, boicotaram a sua posse, não vieram. Isso é uma declaração de guerra. Haverá guerra?

JAIR BOLSONARO:Da minha parte não. Eu não posso fazer uma guerra com governador do Nordeste atrapalhando a população. O homem mais sofrido do Brasil está na região Nordeste, exatamente por causa dessa mentalidade desses governadores. O que nós, com o ministro Marcos Pontes (ministério da Ciência e Tecnologia), que vai agora para Israel (conhecer projetos), vamos fazer é mergulhar em muitos problemas da região Nordeste. A questão da falta d’água, agricultura de irrigação. Temos muitas coisas e vamos levar para o Nordeste definitivamente. Agora já ouvi dizer também, não sei se é verdade, que esses mesmos governadores não vão ter retrato meu em seus gabinetes. Espero que quando vier dinheiro para mim, pelo menos diga o seguinte… ou melhor, não venha pedir nada para mim. Por que eu não sou o presidente deles. O presidente tá lá em Curitiba (capital do Paraná, onde Lula está encarcerado na sede da Polícia Federal). Agora nós não podemos, repito, prejudicar o sofrido povo nordestino por questões políticas.

COITADO DO SEU FRANCISCO…
Esse tipo de declaração é um perigo e o povo em todo o Nordeste precisa acender o sinal de alerta. Bolsonaro é o presidente do Brasil, não apenas de quem votou nele. Não é porque um governador nordestino preferia e pedia voto para o candidato do Lula, que foi derrotado, que ele, como -REPITO- presidente de uma nação venha dizer que governador A, B ou C tem que ir pedir recurso para um ex-presidente que está preso.

Governador, prefeito, senador, deputado, vereador, liderança comunitária… qualquer um pode sim -E DEVE- pedir auxílio ao presidente da República quando isso for necessário para o bem da população. A eleição e suas devidas rixas ficaram para trás. O discurso de Bolsonaro, mesmo ele dizendo que não vai “prejudicar o povo do Nordeste” é muito perigoso. Como presidente da República, certas coisas não podem ser sequer cogitadas. Muito menos ditas!

E isso vale também para quem torce contra a sua administração. Não é porque o Seu Francisco, desempregado e morador de uma localidade rural no interior do Piauí, votou no Haddad que ele precisa torcer pelo insucesso de Bolsonaro. Da mesma forma não é porque o Seu Francisco votou no Haddad que o Bolsonaro não faça nada para tentar melhorar a vida dele.

Talvez se estivéssemos em um País mais maduro, politicamente falando, não seria necessário descrever desta forma. Mas ainda não somos. Estamos longe de ser. Os extremismos, os radicalismos, tanto faz se é de Direita ou de Esquerda, estão criando feudos rodeados de pequenos monstros. Sair por aí fazendo sinal de arma com as mãos ou fazendo sinal de ‘L’ exigindo liberdade para quem não deve ser livre não é o melhor caminho. Enquanto isso, a essa hora o Francisco citado acima está querendo saber apenas quando ele vai ter, quem sabe um dia, direito a um prato de comida para ele e seus filhos.

(*) Oito Meia