Parcerias entre o poder público e os clubes profissionais de futebol são
comuns em todo o país. Em muitos casos, dão frutos positivos. No Piauí, no
entanto, a prática ainda não é muito difundida, o que gera reclamação por parte
dos dirigentes. Por outro lado, representantes da gestão pública alegam que os
clubes locais não se organizam o suficiente para dar uma contrapartida ao
incentivo.
Este tipo de parceria ocorre com o patrocínio de prefeituras e governos
estaduais para os times. Em geral, são exigidas no contrato algumas
contrapartidas, como a publicidade no uniforme e a realização de trabalhos
sociais através do esporte. O sucesso, claro, não é garantido, mas bons exemplos
estão aí para serem vistos.

Botafogo-PB, Juventude, Série D, Paraíba, João Pessoa (Foto: Larissa Keren / Globoesporte.com/pb)
Com apoio público, Botafogo-PB foi campeão da Série
D com presença da torcida (Foto: Larissa Keren)
O mais recente caso bem sucedido vem do futebol paraibano, que teve o seu ano
de ouro em 2013. Na capital, o programa “João Pessoa de Todas as Torcidas” foi
lançado para fortalecer o futebol da cidade e também como parte do projeto para
trazer uma seleção participante da Copa do Mundo para a cidade. Houve
patrocínios para os clubes que foram distribuídos seguindo critérios como
tradição, dimensão, títulos e participação em competições nacionais.
O resultado foi proveitoso e teve o seu auge com o Botafogo-PB, que recebeu a
maior parte do bolo durante o Estadual e, com um grande reforço extra, foi
campeão da Série D do Campeonato Brasileiro. No total, foram mais de R$ 1 milhão
investidos no clube. A prefeitura de Campina Grande, no interior do estado,
também investiu nos seus times. Ao fim da temporada, o saldo foi o Campinense
campeão da Copa do Nordeste e o Treze batendo na trave ao tentar o acesso para a
Série B, depois de ter a melhor campanha da primeira fase da terceira
divisão.

A realidade do
Estado do Piauí

Jankel Costa (Foto: Renan Morais/GLOBOESPORTE.COM)
Jankel Costa, presidente do Flamengo do Piauí: ‘Nada é de graça, vai dar
visibilidade’,
sobre patrocínio público (Foto: Renan Morais)

A situação do futebol piauiense não está tão boa como a do vizinho
nordestino. Sem ter nenhum representante nas três primeiras divisões do
Campeonato Brasileiro, os clubes começam seu planejamento praticamente do zero a
cada ano. O investimento do poder público é algo visto pelos times como uma
possível solução para melhorar o cenário local.
– A constituição diz que o Estado tem que dar lazer e entretenimento para a
sociedade. Não é justo só o poder privado fazer isso, apesar dos ganhos
financeiros que tem. O Estado tem que colaborar, em todo o Brasil acontece isso.
Não é nada de graça. É um patrocínio e dá visibilidade – diz o presidente do
Flamengo do Piauí, Jankel Costa.
A maioria dos dirigentes concorda que o patrocínio público no Estado deveria
existir pelo menos de forma provisória, até que os clubes pudessem se estruturar
e não mais depender desta verba. É o que diz Jacob Mesquita Júnior, presidente do Piauí Esporte Clube.
Ele acredita que os bons resultados conseguidos com este patrocínio trariam de
volta os torcedores piauienses aos estádios.
– Esse dinheiro poderia alavancar um bocado de coisas. Um estádio no Maranhão
hoje é lotado, e é a partir desses momentos que você vê que os clubes têm
condições de andar com os próprios pés. Todos os estados do Nordeste têm esse
investimento – afirma.
Elizeu Aguiar, presidente do River Atlético Clube, faz coro aos colegas. Ele cita, além
do Botafogo-PB, o exemplo do Sampaio Corrêa, que está na final da Série C,
contando que ambos tiveram bons resultados com folhas salariais de mais de R$
200 mil, o que é inviável para qualquer clube piauiense. Tentando mostrar os
motivos que o poder público teria para realizar este investimento, ele elenca
alguns fatores.

– A própria camisa do clube pode ser usada como um agente publicitário. Outra
alternativa seria usar as sedes sociais dos clubes para programas com crianças
de escolas públicas, fazer as escolinhas e propiciar lazer. Os clubes têm que
dar essas contrapartidas, ou então não deve ter esse patrocínio mesmo – defende
o dirigente.
Este patrocínio, claro, não pode ser visto como garantia de grandes
resultados, como o próprio cenário piauiense mostra. Se na capital os clubes se
mantém com pequenos aportes de empresários, no interior do estado as prefeituras
são as principais mantenedoras das equipes. À nível estadual o retorno até
existe, como aponta o retrospecto: nas últimas dez edições do Campeonato
Piauiense, em oito o troféu ficou fora da capital.
No entanto, o sucesso não se repete quando os times vão representar o estado
no cenário nacional. Um time piauiense nunca chegou sequer a segunda fase da
Série D do Campeonato Brasileiro. A exceção fica por conta do Barras, que chegou
à última fase da Série C em 2007, mas não conseguiu garantir o acesso. Na época,
o patrocínio da prefeitura da cidade para a agremiação beirava os R$ 100 mil
mensais, o que não se manteve depois.

– Ali nós tivemos a sorte de contar com dois grandes treinadores, que foram o
Paulo Moroni e o Flávio Araújo. Até 2010 se manteve o nível desse repasse da
prefeitura, mas depois caiu e o time não conseguiu mais repetir os bons
resultados – afirma Manoel Cordeiro, vice-presidente do clube.

Sem organização,
não dá!

Galba Coelho, secretário de esportes de Teresina (Foto: Wenner Tito)
Secretário de Esportes da Prefeitura de Teresina diz que
clubes
precisam de mais organização (Foto: Wenner Tito)
Além das
prefeituras no interior do estado, o governo do estado também auxilia os clubes
em alguns momentos, embora não de forma constante. O que se nota é a falta de
planejamento e continuidade que garantam resultados positivos. Dirigentes
reclamam de dinheiro proveniente de programas anteriores que nunca foram pagos.
Em
2013, o governador Wilson Martins prometeu uma ajuda para os times no Estadual
no mês de março. O dinheiro só foi repassado em novembro, quando já havia se
encerrado a temporada.
A prefeitura de Teresina, atualmente, não apoia nenhum time da capital, e o
secretário de esportes e lazer, Galba Coelho, culpa os clubes por isso. Ele diz
que os clubes locais não são bem administrados e que gastam muito dinheiro
trazendo jogadores de fora, que além de não corresponderem em campo também vão
embora tão logo acabe o campeonato para o qual foram contratados.
– Querem dinheiro (os dirigentes) para montar times com um monte de refugos
horríveis vindos de fora, que estão em fim de carreira e vem ganhar dinheiro
aqui. Passa o campeonato e eles vão embora, sem nenhum vínculo com a cidade, não
fica nada aqui. Assim não se faz esporte – afirma o secretário.
Para Galba, o que os clubes locais deveriam fazer era investir nas categorias
de base, o que justificaria um apoio do poder público, já que haveria um
trabalho social sendo feito. A realidade, no entanto, contrasta com isso e
inviabiliza a possibilidade de um acordo.
– Nós organizamos a Copa Sub-15 que conta com 75 clubes, e adivinhe quantos
estão vinculados à Flamengo do Piauí, River ou Piauí? Nenhum. Garotos daqui são
aprovados em peneiras fora do Estado, mas não têm chance aqui – conta Galba.
O secretário se diz aberto a ouvir sugestões dos clubes para possíveis
parcerias, mas que com o atual modelo de gestão não deve ser aprovado nada. Até
lá, sem organização e sem dinheiro, restam aos torcedores esperar que a situação
do futebol local melhore, com ou sem o apoio do poder público.
(*) Texto: Wener Tito