Cai a chuva para silenciar a hora. Chuva para espalhar vasilhas debaixo do teto nas pobrezinhas choupanas. Chuva para encaminhar o insone cedinho, cedinho à cama. Chuva para romper a incandescente luz da noite tardia. Na chuva, o fio de pensamentos nasce como os pingos que tentam furar o telhado em mover igual ao de quem, inutilmente, quer parar as horas. As lembranças perfuram os dias e arrancam do passado a cidade de água nas veias. E, assim, a caneta se arrasta junto ao declinar das nuvens no céu – lenta, lenta como o pensar em minha aldeia na estação das águas. O azul do firmamento se desdobrava em novas cores – em cinza chumbo, em laranja, em branco, quando se iniciavam os últimos dias e suspiros do ano. Dezembro era assim: em criança, torcia a fim de que o céu não desabasse sobre os paralelepípedos, enquanto durasse a festa de Nossa Senhora. A abstinência de relâmpagos, trovões e suas conseqüências seria a confirmação de vaqueiros desfilando garbosamente em disputas, movidos por um trago aqui, um trago ali. Seria a Praça da Matriz invadida por pitomba, algodão doce, sorvete e, depois das quermesses, gente topando nos próprios pés. Gente esperando Colega ou Picoitin gritar os leilões. Chuva mesmo que viesse no dia de Santa Luzia. E ela não tardava aparecer. Eu a sentia embriagar o cotidiano mesmo em férias na casa do avô. Os riachos da propriedade ganhavam volume rápido. O açude, a vertente, o poronga, o tanque e os pontilhões seduziam meninos, como eu, ansiosos por mergulhar onde houvesse córrego. Ligeiro também o novo tom da paisagem. O campo ganhava verde brilhante e cheiroso – nove horas, malícias, vassourinhas e alecrins. As serpentes deslizando para o morro, para temor dos netos citadinos, que, vez ou outra, esbarravam em alguma jararaca pronta para o bote. Ligeiramente, expandia-se ainda o chacoalhar de sapos nas lagoas a dar um toque de terror a noites frias e sem estrelas. Na chuva, a adolescência galopava no agigantar-se do Marataoã. À margem, meninos de garrafas de fundo furado, depositando nelas farinha, para colhê-las cheiazinhas de piabas. Da margem, via-se a ilhazinha sumir nos primeiros dias de inverno: o futebol diário no centro do rio, no fim de tarde, cedia lugar para a lâmina d’água que arrastava capim, galhos secos e o que estivesse indefeso quando as barragens desaguavam. A ilhazinha cedia lugar também a meninos curiosos e a seus anzóis famintos. Da Beira Rio, a churrascaria sensação da década de 80, partiam as canoas, devidamente autorizadas por Antônio Moraes, que se regozijava com a euforia dos garotos aprendizes da pesca. Das canoas, soltas no meio do rio, eles tragavam dourados, piaus e piranhas. Era na estação das chuvas que marchavam pelas ruas, diariamente, pescadores de ombros erguidos, na sorridente exposição dos surubins gigantes de aguçar o paladar na porta das casas. Agora, entre o concreto minuto da chuva, que belisca o tato do chão e a face do homem, uma cidade em abundância líquida. A (pais)agem reanimada de odores de raízes ressuscitadas. De Teresina a Barras, as curvas desenham as mangueiras de fartas folhagens, o capim mimoso disputando espaço com a rodagem, as carnaúbas reidratadas para o espetáculo de suas múltiplas funções. Uma cidade em abundância líquida se derrete no amplo olhar da ponte do Pesqueiro, de onde os corajosos saltam para a aventura de ser arrastado pela força das correntezas, até agarrar-se em algum arbusto firme do outro lado da ponte. Derrete-se no gosto dessa chuva que mistura lembranças, saudade e amores. Derrete-se no tatear da presença invisível de meu caule, carregado nas enxurradas do rio-memória, onde nado em sensações e pesco palavras.
(*) Texto do escritor barrense Dílson Lages Monteiro
Foto: por-do-sol no Rio Marathaoan