A Guarda Revolucionária do Irã derrubou nesta quinta-feira (20) um “drone espião americano” que teria violado o seu espaço aéreo, advertindo que suas fronteiras constituem uma “linha vermelha”, em um episódio que aumenta a tensão regional e os temores de um conflito entre os EUA e a república islâmica.

Segundo comunicado da Guarda, o aparelho da fabricante americana Northrop Grumman foi derrubado às 4h05 locais (20h35 de quarta-feira pelo horário de Brasília), no sul do país. O drone foi atingido por um míssil da força aeroespacial da Guarda sobre a província de Hormozgan, às margens do golfo de Omã, “após violar o espaço aéreo iraniano”, afirma o texto.

Washington confirmou a derrubada do drone – que seria um modelo MQ-4C Triton –, mas negou que o veículo tenha invadido o território iraniano. Joseph Guastella, comandante da Força Aérea americana no Oriente Médio, afirmou que o aparelho foi abatido no meio do estreito de Hormuz, a 34 km do ponto de terra mais próximo do litoral do Irã.

Segundo a Guarda Revolucionária, o drone decolou de uma base americana “na costa sul do golfo Pérsico, apagou todos os seus dispositivos de reconhecimento” após passar pelo estreito de Hormuz e se dirigiu para o leste, em direção ao porto iraniano de Chabahar. “A violação das fronteiras iranianas é a linha vermelha que não deve ser ultrapassada”, alertou o general de divisão Hosein Salami, comandante em chefe da guarda. “Nossa reação é e será categórica e absoluta”, enfatizou.

Mais tarde, o chanceler Mohammad Javad Zarif afirmou que o drone partiu dos Emirados Árabes Unidos. “Recuperamos partes do drone militar americano em nossas águas territoriais onde ele foi abatido”, afirmou. “Protestamos contra todas as ações provocativas que atentem contra a integridade territorial do nosso país”, disse o porta-voz da chancelaria iraniana, Abas Musavi, advertindo que “a responsabilidade por eventuais consequências dessas ações cabe exclusivamente aos agressores”. A imprensa iraniana não divulgou nenhuma imagem do aparelho destruído.

O presidente americano, Donald Trump, escreveu em uma rede social que o Irã “cometeu um erro muito grande”, pouco depois da confirmação da notícia pelo Pentágono. Após a declaração de Trump, os preços do petróleo dispararam, com a preocupação de instabilidade no estreito de Hormuz, por onde passa cerca de um terço do óleo comercializado em todo o mundo.

O barril WTI em Nova York fechou o dia com alta de 5,39%, cotado a US$ 56,66 (R$ 21), enquanto em Londres o barril Brent subiu 3,79%, a US$ 64,16 (R$ 246). Mais tarde, antes de um encontro com o premiê canadense, Justin Trudeau, Trump procurou minimizar a derrubada do drone, ao dizer que “um general ou alguém estúpido” pode ter cometido um equívoco não intencional.

Segundo o presidente, o episódio foi como “uma nova mosca na pomada”, expressão em inglês para se referir a um contratempo diante de uma situação que poderia estar melhor. “Não havia ninguém dentro do drone. Teria feito uma grande diferença se a aeronave fosse pilotada.” Trump disse aos jornalistas que eles vão “descobrir” como Washington vai reagir à ação de Teerã, mas manteve aberta a possibilidade de diálogo. A Casa Branca tem reiterado que pretende evitar uma guerra com o Irã.

Os EUA enviaram mais mil soldados para o Oriente Médio nesta semana, mas mantêm o discurso contra um eventual confronto. Após um encontro na Casa Branca com congressistas de alto escalão, a presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, pediu que o governo diminua o nível de tensão com os iranianos.

As Forças Armadas americanas vinham intensificando suas acusações contra Teerã, a quem responsabilizam pelos ataques contra dois navios petroleiros no golfo de Omã, na semana passada . O Irã negou envolvimento no ataque e insinuou que poderia se tratar de uma armação dos EUA para justificar o uso da força contra o seu país.

Um mês antes, outras quatro embarcações foram atingidas na entrada do golfo, episódios pelos quais Washington também responsabilizou o Irã. Nos dois casos, os petroleiros estavam perto do estreito de Hormuz. Um dos motivos para o agravamento da crise foi a decisão de Trump, em maio de 2018, de retirar os EUA do acordo nuclear assinado com o Irã em 2015 e restabelecer duras sanções contra Teerã, privando-a dos benefícios econômicos esperados deste pacto internacional.

Autoridades de França, Alemanha, Reino Unido, China, Rússia e Irã vão se encontrar no próximo dia 28, em Viena, para discutir maneiras de salvar o acordo nuclear iraniano, informou a União Europeia nesta quinta (20). O encontro vai discutir “como lidar com os desafios advindos da retirada [americana] e da reimposição de sanções pelos EUA contra o Irã”, afirmou em nota.