Era manhã do vigésimo sexto dia de março de 1909 quando desembarcou na antiga Praia do Peixe, trazido de vapor dos Estados Unidos, o primeiro automóvel de Fortaleza. Comprado de segunda mão por oito mil réis, o veículo Rambler foi acompanhado por uma multidão assombrada enquanto descia da embarcação às ruas, até então dominadas por carroças, jumentos e cavalos. Havia, no entanto, um problema: ninguém sabia ligar o carro.

O jeito foi apelar para a gambiarra: arrumaram um jumento e amarram nele a joia americana. “Formou-se, ao redor do veículo e daquele jumento histórico, uma verdadeira procissão de curiosos, que acompanhou religiosamente rua afora, observando-lhe os menores movimentos, notando-lhe o funcionar das rodas e (…) admirando o ruidar barulhento de sua buzina”, relata o jornalista Raimundo de Menezes na memória Coisas que o tempo levou, de 1938.

Puxada pelo quadrúpede, a “máquina de última geração” percorreu cerca de um quilômetro entre o prédio da Alfândega (hoje a Caixa Cultural, na Praia de Iracema) até o Cassino Cearense, na rua da Palma (hoje rua Major Facundo, no Centro), onde foi recebido pelos novos proprietários, os pioneiros Meton de Alencar e Júlio Pinto. Durante todo o trajeto, o apito estridente da buzina fazia a festa da garotada e parava a cidade em curiosidade.

As primeiras “expedições”

O primeiro passeio do Rambler cearense, no entanto, só viria dois dias mais tarde. Recolhido dos olhares curioso da cidade, o carro passou 48 horas sob os “cuidados” de Roberto Muratori e o Dr. Meireles – os primeiros mecânicos de Fortaleza, bem dizer –, que se dividiam sobre as causas do prego. “Um atribuía o insucesso aos dentes da engrenagem de distribuição, enquanto o segundo, por sua vez, atirava a responsabilidade às manivelas”, diz Raimundo.

A solução veio por volta das 22h de 28 de março de 1909, quando o veículo saiu enfim pelo Centro de Fortaleza. Guiado pelo português Rafael Dias Marques, o automóvel se movimentou vagarosamente por apenas alguns metros e enguiçou novamente. Entram em cena então Clóvis Meton e Alfredo Euterpino Borges, que passaram a estudar e realizar experimentos, sempre na calada da noite, com a máquina pelas ruas da Capital.

Sempre acompanhados pela população, os dois foram indo cada vez mais longe com o carro: primeiro, foram do Centro até o Alagadiço (atual São Gerardo), depois até a Messejana. Durante os experimentos, quase sempre o Rambler quebrava, sendo necessário desmontá-lo, no meio da rua, para os consertos. Como o motor ficava abaixo do veículo, era preciso arrancar toda a carroceria do carro sempre que isso acontecia.

Manutenção complicada

Sem especialistas no assunto nem peças de reserva, Fortaleza era uma terra difícil para manter um carro. Em uma das viagens, os entusiastas perderam, na estrada da Messejana, a tampa do radiador do carro. “Júlio Pinto fez anunciar pelos jornais que gratificaria generosamente a quem a encontrasse e a devolvesse. Deu-se então um fato original: movimentou-se toda uma chusma de populares a procurar a peça perdida e ao Palhabote (restaurante de Júlio Pinto) acorreu uma romaria de pessoas a conduzir toda uma série interminável de objetos de ferro”.

De tanto rodar, os pneus ficaram gastos, sendo substituídos por uma “gambiarra” feita de madeira e com aros de ferro. “Devido à barulheira infernal nas pedras do calçamento, tiveram pouco tempo de uso”. Por causa da barulheira do motor e dos holofotes, ainda novidade na noite cearense, o automóvel ganhou o apelido de “Mal-Assombrado” da população.

Com o tempo, novos carros foram surgindo em Fortaleza, com a instalação também de bondes elétricos e a abertura de ruas e avenidas. O motor do Rambler acabou sendo aproveitado anos mais tarde para puxar uma bolandeira de fazer farinha, em uma propriedade na estrada da Parangaba.

Confira a íntegra de “O primeiro automóvel de Fortaleza”, de Raimundo de Menezes:

Fortaleza teve o seu primeiro automóvel em 28 de março de 1909. São passados, portanto, 29 anos daquele dia, notável na História, em que a nossa bem comportada capital assistiu, assombrada, meio trêmula de emoção, à primeira experiência, a horas caladas da noite, do primeiro veículo a motor que por estas plagas, apareceu e rodou, como um fantasma, pelas nossas ruas ingênuas e provincianas.

Foi um acontecimento surpreendente aquele da notícia da chegada a Fortaleza, vindo dos Estados Unidos, pelo vapor inglês “Cearense”, de um automóvel já usado, comprado em segunda mão pela empresa Auto Transporte do Dr. Meton de Alencar e de Júlio Pinto, proprietários do Cassino Cearense, a qual o adquiria pela importância de 8:000$000. Era o veículo em apreço de marca americana, produto da fábrica Rambler, e de fabricação assaz primitiva.

O seu desembarque, que se deu no dia 26, foi um sucesso que abalou meio mundo. Não houve quem não se quedasse, meio basbaque, nas imediações da Alfândega para vê-lo passar, numa curiosidade insatisfeita. Da Alfândega até o edifício do Cinema Júlio Pinto, trajeto que o avô dos automóveis dos nossos dias realizou com que sacrifícios, sabe Deus!, foi feito, puxado grotescamente por um jumento, pois o funcionamento do seu motor era ignorado entre nós.

Formou-se, ao redor do veículo e daquele jumento histórico, uma verdadeira procissão de curiosos, que o acompanhou religiosamente rua afora, observando-lhe os menores movimentos, notando-lhe o funcionar das rodas e, fato curioso que desde logo chamou a atenção espevitada dos garotos, admirando o ruidar barulhento de sua buzina que era nada menos que um apito estridente.

Pela empresa compradora, John Peter Bernard acompanhava o carro, que foi recolhido ao Palhabote, onde Roberto Muratori e o velho Dr. Meireles passaram a estudar-lhe o motor, procurando, com esforços inauditos, fazê-lo funcionar, o que conseguiram dias depois, dando-se a experiência mais ou menos pelas 22h.

O Rambler movimentou-se vagarosamente alguns metros, pela rua, guiado pelo português Rafael Dias Marques, caixeira da Casa Bordalo, e estacou adiante e não houve força humana que o fizesse rodar. Estavam presentes à inauguração Clóvis Meton, a quem devo a gentileza dessas notas; o Dr. Meton de Alencar, o Dr. Gadelha e Júlio Pinto.

Voltou ele, rebocado, para o Cassino Cearense. Então, entre Roberto Muratori e o Dr. Meireles estabeleceu-se uma cômica divergência, em virtude de o primeiro atribuir o insucesso aos dentes da engrenagem de distribuição, que considerava excessivos, enquanto o segundo, por sua vez, atirava a responsabilidade às manivelas, apontadas como demasiadamente compridas.

Houve discussões acaloradas em torno do palpitante assunto, resolvendo eles, por fim, desistir da difícil empresa. Foi quando Clóvis Meton e Alfredo Euterpino Borges meteram-se de corpo e alma a deslindar o segredo da misteriosa máquina. E dias e dias ficaram misturados com o seu maquinário esquisito, até quando obtiveram melhores resultados, saindo, afinal, para a via pública, cercado sempre do maior e mais vivo interesse por parte da população.

Sempre na calada da noite, realizaram experiências, ora indo até o Alagadiço, ora à Estação dos Bondes. Quase sempre o Rambler enguiçava, sendo preciso desmontá-lo, em plena rua, para consertá-lo. E toda a vez que tal acontecia, fazia-se mister arrancar a carroceria, pois o motor estava localizado sob o veículo. Às vezes, permanecia semanas na oficina improvisada, recebendo os desvelos daqueles dois devotados amadores.

De uma feita, perdeu-se, na estrada da Messejana, a tampa do radiador, e logo Júlio Pinto fez anunciar pelos jornais que gratificaria generosamente a quem a encontrasse e a devolvesse. Deu-se então um fato original: movimentou-se toda uma chusma de populares a procurar a peça perdida e ao Palhabote acorreu uma romaria de pessoas a conduzir toda uma série interminável de objetos de ferro que haviam encontrado, por acaso, naquela estrada. E, em meio de todo esse bric-à-brac, apareceram até camburões de ferro… naqueles áureos tempos ainda se desconhecia o que fosse uma tampa de radiador.

De tanto rodar, os pneus, um dia, ficaram gastos, e se tornou preciso substituí-los, mas onde encontra-los? Improvisaram-se, então, umas rodas de madeira com aros de ferro… Devido à barulheira infernal nas pedras do calçamento, tiveram pouco tempo de uso.

Apesar de todas essas suarentas trabalheiras, conseguiu esse auto ir, por várias vezes, a Messejana e, de uma feita, até daqui até Itaúna, dentro de um vagão da Estrada de Ferro de Baturité, e dali em diante por uma estrada, que não era bem estrada, mandada abrir por Leôncio Macambira. Levou um dia inaudito, de Touro a Canindé! Mas quanto sacrifício e quantos esforços gastos nessa travessia quase homérica!

O povo da rua, na sua verve inesgotável, apelidou-o de “Mal-Assombrado”, devido aos seus holofotes, que varavam a escuridão da noite, e por causa ainda da barulheira bizarra do seu motor… Certa vez, demandando o Alagadiço, ao passar na esquina da rua do Imperador, para desviar-se de um transeunte, foi de encontro a um muro, derrubando-o, sendo esse o primeiro desastre que sofreu, sem maiores consequências, além do prejuízo material.

Sempre guiado por Rafael Dias Marques, o Rambler rodou durante algum tempo pela Fortaleza daquelas eras. Depois outros carros apareceram: um do Dr. Gadelha e outro do Clóvis Meton, sendo que o de Júlio

Pinto recebeu o apelido de “Vovô”, enquanto o de Clóvis ficou conhecido pelo de “Mariquinhas”…

Anos são passados. E, ainda, até hoje, no entanto, o motor daquele Rambler, que possui a glória de ter sido o primeiro automóvel que rodou pelas ruas de Fortaleza, trabalha, infatigavelmente, dentro da sua velhice respeitável, puxando uma bolandeira de fazer farinha, de propriedade do Façanha, na estrada de Porangaba…

Se aquele ferro velho pudesse falar, quantos episódios interessantes não teria ele para narrar?

(*) Carlos Mazza, O Povo