O escritor de origem barrense Afonso Ligório Pires de Carvalho, que esteve em Barras em 2008, lançando o livro Terra do Gado, será empossado hoje membro da Academia Brasiliese de Letras. Em homenagem ao escritor, o crítico literário M. Paulo Nunes escreveu crônica que publicamos neste espaço.
Afonso, na Academia Brasiliense(*) M. Paulo Nunes
Uma grave crise de labirintite, doença que o diabo inventou, impediu-me de comparecer à posse do velho amigo e companheiro de geração, Afonso Ligório Pires de Carvalho na vaga do poeta H. Dobal, na Academia Brasiliense de Letras. Parece ter havido uma conjunção feliz dos astros para que essa cadeira, que tem como patrono Rui Barbosa, viesse a ser ocupada por outro integrante daquele grupo que, em meados da década de 40, se reunia à noite, na velha Praça Pedro II, em meio ao bulício das moças em flor que desfilavam ante os olhos ávidos dos rapazes do nosso tempo; estes, num sentido e elas, em sentido contrário, a fim de que os olhares pudessem encontrar-se, uma vez que os corpos, à diferença de hoje em dia, somente se encontrariam após os laços do himeneu, para usar uma linguagem daqueles tempos. Enquanto isto nós, outros, supostamente indiferentes a este sortilégio, reunidos no Centro da Praça, em torno de um globo de luz que ali existia, nos empenhávamos em discussões leizanas, dando assim vida à nossa Arcádia Teresinense, talvez a única academia existente no mundo, funcionando ao ar livre. Quanto tempo perdido!
Afonso era um deles, embora dos mais novos, porquanto somente no ano passado foi que chegou aos 80 janeiros.
Depois, seguindo a família para o Recife, atento ao espírito aventureiro de seu pai Antônio Carvalho Sobrinho (Inhozinho) que já viera de Luzilândia onde nascera toda a família, para Teresina, completando naquela cidade sua formação intelectual e abraçando o jornalismo, como profissão; primeiro no Jornal Pequeno, daquela cidade e depois no velho e secular Diário de Pernambuco, sob a batuta do grande jornalista Aníbal Fernandes, de quem traçaria o perfil profissional num livro prodigioso – Aníbal Fernandes, um espachim da imprensa. Pernambuco e a cidade do Recife lhe marcariam fundamente a personalidade intelectual. Da história daquela capitania marcante na formação da economia do país retiraria a inspiração para a sua obra de fôlego, Capitania do Açúcar, que alcançaria a medalha de prata no concurso internacional Marengo D’Oro, realizado em Gênova, na Itália, em 2004. Já dissemos desse grande livro, que constitui um retrato de corpo inteiro da civilização açucareira, da qual Gilberto Freyre já traçara, em Casa Grande & Senzala o perfil sociológico, que a ele sim, se aplicaria, merecidademente, aquela referência de João Ribeiro, ao dizer que Gilberto Freyre teria sido o grande sociólogo do nordeste açucareiro e José Lins do Rego o seu romancista, dado que Afonso, em sua obra, adota critério mais abrangente, ao enfocar aquele meio social desde os primórdios da colonização.
Depois, Afonso faria novo périplo em sua rota de vida, mudando-se para Brasília, trazendo do Recife a dileta companheira Dra. Ridete. Ali o reencontrei em meu exílio voluntário naquela cidade, depois de assistir á derrocada dos sonhos de tentar construir algo de duradouro em termos de educação renovada em nossa terra, com o esfacelamento de velhos ideais que tentei converter em realidade, os quais se esboroaram como castelos de areia.
Afonso se afirmaria como contista, com os livros “mansfieldianos”, como os defini na apresentação que deles fiz, Só Esta Vez… e A Hora Marcada, o primeiro dos quais já traduzido para o inglês e o espanhol.
Com o Piauí mantém Afonso uma vinculação afetiva das mais profundas, evocando nossa terra em seu belo livro de memórias, Outros Tempos, em que faz uma perfeita evocação de nossa capital, de seus antigos casarões nas ruas hoje criminosamente descaracterizadas pela especulação imobiliária, e em que restitui o perfil de uma cidade, que apenas sobrevive em nós como aquelas “cidades da memória”, de que fala Saramago em uma de suas entrevistas. Dedicaria ainda ao Piauí o seu último livro, este, sobre a história piauiense, Terra do Gado, de grande relevo como segura informação de nossas origens, sobre o qual já longamente discorri em artigo nesta coluna. É membro efetivo de nossa Academia de Letras, ali ocupando a cadeira nº 29.
O neoacadêmico será recebido naquela Academia pelo poeta e meu velho amigo Anderson Braga Horta, um dos maiores poetas e ensaístas da geração pós-45, que Tristão de Athayde distinguiu pelo seu caráter universalista, em sessão que terá como presidente outro estimado amigo, o também poeta, dos melhores que já conheci, Antônio Carlos Osório. Assim, à distância, só me resta desejar ao caro Afonso e à sua família as nossas mais cálidas esperanças de sucesso e os nossos melhores aplausos, nesta hora solar de seu destino literário.
Publicado originalmente no Diário do Povo, 25.02.2010