Um mês e 15 dias depois, a morte da universitária Fernanda Lages ainda é um
ministério. Listo, a seguir, 10 tópicos intrigantes em todo do episódio,
recolhidos da crônica policial:
1. O afastamento do delegado Mamede
Rodrigues do caso, dez dias depois, alegando falta de estrutura na delegacia
para fazer a investigação. O pedido de afastamento surpreendeu por se tratar de
um policial experiente, que passou dez anos como delegado de Homicídios e foi
delegado geral.
2. O caso foi para a Comissão de Investigação do Crime
Organizado (Cico), sendo entregue a oito delegados. Mesmo assim, até agora não
foi desvendado.
3 . Os laudos de exame de local de crime e de corpo de
delito cadavérico passaram um mês para sair. Comumente, levam oito
dias.
4. Houve duas reconstituições, e sem testemunhas oculares e sem
acusados para dizer como o fato teria acontecido.
5. Os exames
suplementares (DNA e toxicológico) foram encaminhados para o Departamento de
Polícia Técnica da Paraíba, em duas etapas, porque o Instituto de Criminalística
do Piauí não dispõe de equipamentos para a realização desses exames.
6.
Não foi entregue ainda à polícia o relatório da escuta telefônica.
7. A
entrada do governador do Estado no caso duas vezes, uma quando avisou que não
aceitaria a prorrogação do inquérito (mas o prazo de 30 dias acabou sendo
prolongado para 60) e a outra quando convocou representantes de instituições ao
Palácio de Karnak para discutir o andamento das investigações.
8. Briga
acirrada entre Ministério Público e Polícia Civil.
9. Enquanto os
promotores e delegados brigam, o criminoso (se existe) está solto e o vigia da
obra (peça-chave no inquérito policial) sem nenhuma proteção, correndo risco de
vida, como queima de arquivo.
10. Diante da demora na elucidação do fato,
uma central de boatos foi instalada em Teresina e ela trabalha a todo vapor, 24
horas por dia, fabricando versões as mais fantasiosas e fantasmagóricas sobre o
episódio.

A entrada do governador Wilson Martins no Caso Fernanda Lages me traz à
lembrança outro episódio trágico com desfecho desastroso e patético. Na
madrugada de 28 de julho de 1987, foi brutalmente assassinado em casa, na zona
Leste de Teresina, após uma sessão de espancamento, o jornalista e empresário
Hélder Feitosa, dono do jornal O Estado e das Rádios Poti AM e FM.

O crime obteve ampla repercussão. Por dias seguidos, em toda esquina, a
pergunta era uma só: quem matou Helder Feitosa? Havia especulações para todos os
gostos, como no Caso Fernanda Lages. O governador Alberto Silva, acuado, decidiu
entrar pessoalmente no caso e chamou de Brasília o perito criminal Aidano
Faria.

A ficha do perito recomendava: ele vinha do desvendamento do misterioso
assassinato do radialista Mário Eugênio, da Rádio Planalto, no final de 1984.
Chegando em Teresina, com contrato a peso de ouro, ele assumiu a coordenação das
investigações. Em pouco tempo, três jovens – Parcifal, Nikita e Paulo Cabral –
eram apresentados como autores da morte de Hélder Feitosa.

Não houve qualquer contestação quanto ao resultado da investigação. A Polícia
e o Ministério Público endossavam as conclusões a que chegou o perito
brasiliense. A imprensa local engoliu o inquérito incriminando os três acusados.
O crime estava, enfim, elucidado, e o governo com a sensação do dever
cumprido!

Entretanto, na Rádio Difusora de Teresina, o único veículo de comunicação da
capital à época com linha editorial independente, o jornalista Arimatéia Azevedo
desconfiou do resultado da apuração policial e bancou, num ato de loucura
profissional, uma investigação paralela. Só com a cara e a coragem, desafiava a
tudo e a todos. Para tanto, contou com a parceria destemida do advogado Cadena
Neto, também defensor público.

De saída, o jornalista e o advogado descobriram que a polícia arrancou
confissões dos acusados mediante seguidas e intermináveis sessões de torturas. À
época, além de apresentar com Arimatéia Azevedo o principal programa
jornalístico da Difusora, “Cidade Livre”, eu era correspondente do “Correio
Braziliense” no Piauí e mandava para lá, diariamente, matérias sobre a apuração
paralela do jornalista. Foram dias tensos, mas a farsa caiu, o perito retornou
às pressas para Brasília, os inocentes foram soltos e até hoje nem a polícia nem
o Ministério Público nem a imprensa pediram-lhes desculpas.

Preocupa-me, desde então, o fato de um governador entrar pessoalmente num
caso policial rumoroso, por melhor que seja a sua intenção.

(*) Texto: Zózimo Tavares