“Nunca é tarde para recomeçar”. Com esta frase, o ex-usuário de drogas Flávio Roberto Pereira Ferreira começou o discurso de agradecimento durante solenidade na comunidade terapêutica Fazenda da Paz, na zona rural de Timon-MA, onde ele recebeu o certificado de graduação pelo “Programa de Tratamento em Dependência Química”.
Na solenidade, outros sete internos da comunidade foram homenageados e receberam um certificado de que estão aptos a conviver na sociedade novamente. Pais, mães, esposas, filhos e amigos aguardavam ansiosos o momento de levar o familiar de volta para casa. Agora, renovados, livres das drogas e dispostos a encarar a vida de uma outra forma, longe do vício, do crime, e perto de Deus.
Depois de um ano de tratamento, o único que não voltará para casa e permanecerá na Fazenda da Paz é Flávio Roberto, de 33 anos. Ele perdeu o contato com a família durante os vinte anos em que era dependente químico e a única pessoa, além dos colegas de internação, a prestigiá-lo durante a solenidade de entrega do diploma, foi o Delegado Gustavo Jung, que o prendeu pelo menos vinte vezes na cidade de Piripiri, ao norte do Piauí. Na sexta-feira (25) o Delegado foi surpreendido com um telefonema da comunidade afirmando que o preso gostaria que ele estivesse presente na solenidade.
“Delegado, eu agradeço a minha vida ao senhor. Se hoje estou aqui e não fui morto por nenhum traficante, ou mesmo por conta dos efeitos da droga, é porque o senhor foi a única pessoa que confiou em mim”, disse Flávio Roberto ao Delegado.
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Em uma das dezenas de vezes em que o ex-dependente químico foi preso, sempre por furto ou roubo, o Delegado Gustavo teve uma conversa com Flávio e perguntou o que ele estava fazendo da vida. “Eu lembro que quando fiz essa pergunta ele respondeu: –Doutor, eu não preciso ser preso, eu preciso é de tratamento. Sou viciado em droga e roubo para manter o vício”, afirmou o Delegado lembrando a conversa que teve com Flávio em Janeiro de 2013.
Dias após essa conversa, um estelionatário foi preso no município se passando por voluntário da Fazenda da Paz. Ele pedia doações aos moradores. Para confirmar que se tratava de um falsário, o Delegado entrou em contato com a coordenação da comunidade terapêutica. Foi aí que surgiu a oportunidade de tratar do caso do preso que era dependente químico. “Conheci o Célio Luz, presidente da Fazenda da Paz, e o Diego Viana, voluntário, e perguntei se era possível internar o Flávio para que ele fizesse um tratamento. Muito solícitos, eles responderam positivamente. E quando o Flávio Roberto foi preso novamente, dessa vez pelo furto de uma cadeira, eu perguntei se ele aceitava mesmo o tratamento. Ele disse que sim e eu conversei com o juiz, que autorizou a internação”, relembra Gustavo Jung.
O próprio delegado, com a ajuda de uma médica da cidade, custeou os exames que Flávio Roberto Pereira necessitava fazer antes da internação na comunidade e também comprou os objetos pessoais que ele precisava levar para a Fazenda da Paz. ”Recordo-me que dos nove policiais que trabalhavam comigo no distrito, todos foram unânimes em dizer que seria em vão, que ele não passaria cinco dias na comunidade e desistiria. Os agentes e escrivães fizeram até aposta. Mas mesmo convivendo diariamente com as mazelas da sociedade, eu acredito no ser humano. Eu acho que faltam oportunidades. Se o Flávio desistisse, eu estaria com a minha consciência tranquila, eu tentei”, disse o delegado, bastante emocionado, enquanto recebia o agradecimento do ex-preso.
O ex-dependente químico é hoje o metalúrgico da Fazenda da Paz. Além de cuidar com muito esmero da oficina, que conserta motocicletas, os carros da comunidade e as peças da fábrica de cajuína, Flávio Roberto ajuda os colegas de internação na organização da comunidade, que produz castanha; hortaliças; cajuína e produtos de madeira, como bancos de igreja.
Hoje, após um ano, o ex-preso, que tanto fugiu do delegado, fez questão de não se esconder e apresentou ao agora amigo e salvador Gustavo, cada espaço da Fazenda da Paz, explicando com muito orgulho o trabalho que hoje desenvolve.
Na despedida do encontro na comunidade, Flávio Roberto fez um pedido ao Delegado: “Doutor, faça com outras pessoas o que o senhor fez comigo. Serei eternamente grato. E quando voltar a Piripiri para responder pelos crimes que cometi, irei à sua delegacia. Mas dessa vez não será para ficar preso, mas para conversar com os outros presos, pedir que eles saiam do mundo das drogas, afinal a maioria está preso por algum crime relacionado ao uso de entorpecente”, concluiu Flávio Roberto Pereira Ferreira, que agora tem registro de identidade, mas mais que isso, uma nova vida.
O Delegado Gustavo Jung saiu da Fazenda da Paz lisonjeado por ter sido lembrado pelo ex-preso e com o desafio de continuar prendendo que infringe a lei, mas também de buscar oportunidades a quem quer seguir um novo caminho.